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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

QUANDO NÃO CONTRAIR A PREPOSIÇÃO COM O ARTIGO



Apesar DA maioria dos trabalhadores ser contra, a greve continuará.

Dúvida: Professor, a minha dúvida é em relação às seguintes expressões:  A PARTIR DE, ATRAVÉS DE, APESAR DE.  Pelo que sei, existe uma regra que impede de juntar essa preposição DE com o artigo, gerando, por exemplo: apesar DA,  a partir DO e através DESSA...  Gostaria de saber como funciona isso, quando não se pode usar, quais as expressões adequadas nesses casos e por quê?
Eis a resposta:

Não existe regra que impeça juntar a preposição DE com os artigos; pelo contrário: é mais frequente a contração das preposições DE,  EM  e  POR com os artigo O, A, OS, AS, gerando: DO, DA, DOS, DAS, NO, NA, NOS, NAS, PELO, PELA, PELOS, PELAS do que a combinação dos elementos separadamente. Vejamos alguns exemplos:

Acredito NA sua versão dos fatos.
Torço PELA sua pronta recuperação.
Apesar DA crise, sei que iremos nos reerguer.
A partir DA próxima semana, teremos aulas no período da manhã.
A luz conseguia entrar no quarto através DAS pequenas janelas laterais.
Está na hora DA reunião.

Em nenhum dos exemplos supracitados, a preposição e o artigo poderiam ficar separados.
A contração da preposição com o artigo passa a ser equivocada se o elemento POSTERIOR à preposição funcionar como SUJEITO de um verbo. Se o elemento POSTERIOR à preposição funcionar como SUJEITO, o artigo deverá ficar isolado. Por exemplo:

Apesar DE A crise ainda existir, sobreviveremos a ela.

Perceba que o substantivo crise funciona como sujeito do verbo existir, já que: Que é que existe? Resposta: a crise. A preposição DE e o artigo A devem, portanto, ficar separados - DE A - e não juntos. Seria inadequado, portanto, escrever: Apesar DA crise ainda existir... )

Está na hora DE OS pacientes dormirem. (O substantivo pacientes funciona como sujeito do verbo dormir, já que Quem é que dormirá? Resposta: os pacientes. A preposição DE e o artigo OS devem, portanto, ficar separados: - DE OS - e não juntos. Seria inadequado, portanto, escrever Está na hora DOS pacientes dormirem. .

O mesmo acontecerá com os pronomes ele(s), ela(s), este(s), esta(s), isto, esse(s), essa(s), isso, aquele(s), aquela(s), aquilo. Por exemplo:

Apesar de isso ainda existir, venceremos a batalha contra o preconceito. (Que é que existe? Resposta: isso)

Está na hora de eles dormirem. (Quem é que dormirá? Resposta: eles).
No momento de aqueles direitos serem respeitados, todos se omitem. (Que é que será respeitado? Resposta: aqueles direitos

Claro está que apresento tudo isso segundo a norma culta de nossa língua. No dia a dia não nos preocupamos com as regras gramaticais e nos comunicamos com a contração, sempre. Não quero dizer que os brasileiros que assim o fazem estejam errados. Quero apenas registrar a norma culta, a forma adequada, para os interessados em escrever e falar melhor a nossa língua.
Como fica, então, a frase apresentada no início da nossa postagem, segundo a norma culta? Vejam:

O verbo ser exige como sujeito a expressão  a  maioria dos trabalhadores, já que "Quem é contra?" Resposta: a maioria dos trabalhadores. A preposição e o artigo devem, então, ficar separados:

Apesar DE A maioria dos trabalhadores ser contra, a greve continuará. 

Espero que essas explicações tenham sido úteis.
Grande abraço a todos!

Professor Daniel Vícola.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

CONCORDÂNCIA DE FORMAS VERBAIS NO INFINITIVO

Estamos aqui para estudar ou estamos aqui para estudarmos?

O post de hoje responde à dúvida do leitor (ou leitora!) que se identifica como "aprendiz", aqui nos comentários do blog. Pergunta ele(a): "Qual é a forma correta: 'Estamos aqui para estudar ou estamos aqui para estudarmos.' ?" Em primeiríssimo lugar, agradeço a visita e a contribuição, caro(a) leitor(a): a partir das dúvidas que me chegam posso construir um espaço cada vez mais útil e interessante aos meus leitores e alunos. Em segundo lugar, você me pergunta o "assunto" dessa dúvida: trata-se de um problema de CONCORDÂNCIA VERBAL. Você quer saber sobre como proceder a concordância da forma verbal no infinitivo depois de uma preposição, no caso, a preposição "para". Esse, como você verá, é um "enrosco" bastante comum no cotidiano (principalmente escrito) da língua! Uma dúvida que, com certeza, é compartilhada por muitos falantes e estudantes da língua portuguesa. 
Para solucioná-la, contei com a ajuda valiosa dos conhecimentos colhidos ao professor Sérgio Nogueira, que leciona, a esse respeito, o seguinte:
 
USO DO INFINITIVO
 
1) Em locuções verbais, devemos usar o infinitivo impessoal (= aquele que não se flexiona):

“Os deputados DEVEM ANALISAR o caso na próxima semana.”
“Os contribuintes PODERÃO, a partir da próxima semana, PAGAR antecipadamente o IPTU.”

Observe que, nas locuções verbais, temos uma oração. O verbo auxiliar é o que concorda com o sujeito.
 
2) Em orações reduzidas, usamos o infinitivo pessoal (= aquele que se flexiona, concordando com o sujeito):
 
O professor trouxe o livro PARA EU LER (= para que eu lesse)
PARA TU LERES
PARA ELE LER
PARA NÓS LERMOS
PARA VÓS LERDES
PARA ELES LEREM
 
Nesse caso, são duas orações. “O professor trouxe o livro” é a oração principal. A segunda oração é uma subordinada adverbial reduzida de infinitivo.
 
Observe o exemplo a seguir:
“Houve uma ordem / PARA OS PRÓPRIOS FUNCIONÁRIOS CADASTRAREM OS CONTRIBUINTES.”

Esquema de fixação:
Locução verbal = verbo auxiliar + infinitivo impessoal (= não se flexiona);
Oração principal + oração reduzida de infinitivo (pessoal = concorda com o sujeito)

Dúvida do(a) leitor(a):

“Estamos aqui para estudar ou estamos aqui para estudarmos.”

São duas orações. “Estamos aqui” é a oração principal e “para estudar(mos)” é uma oração subordinada adverbial final reduzida de infinitivo. Aqui, portanto, temos duas orações, mas o sujeito é o mesmo (nós). Como o sujeito do infinitivo está oculto (nós), alguns autores consideram um caso facultativo, outros afirmam que é um caso de infinitivo não flexionado. Em geral, a preferência é pelo SINGULAR:

“Estamos aqui PARA ESTUDAR.” (forma preferencial) ou "Estamos aqui PARA ESTUDARMOS." (uso facultativo)

Observe mais exemplos:
“Duas novas ruas foram abertas / para FACILITAR o acesso.”
“Usineiros e representantes estarão em Brasília / para PRESSIONAR o governo federal.”

É interessante observar que, na 1ª pessoa do plural, todos preferem o infinitivo não flexionado: “Nós saímos / para ALMOÇAR”. Ninguém diria: “Nós saímos para almoçarmos.”

Observe, agora, os casos abaixo:

1) Se o sujeito estiver claramente expresso, a concordância é obrigatória:
“Trouxeram os sanduíches / para NÓS ALMOÇARMOS no escritório.”

2) Quando o infinitivo desempenha a função de complemento, usamos a forma não flexionada:
“Os paulistanos foram obrigados A PASSAR quatro horas no saguão do aeroporto.”
“A falta de informação leva outros meninos A FAZER a mesma coisa todos os dias.”
“A lei proíbe os brasileiros DE FUMAR na ponte aérea.”
“Os músicos foram impedidos DE PARTICIPAR de qualquer tipo de trabalho em discos.”

3) Quando o verbo for de ligação (= SER, ESTAR, FICAR, TORNAR-SE…) ou estiver na voz passiva, a concordância é facultativa, mas a preferência é o PLURAL:
“Elas tiveram que suar muito PARA SE TORNAREM as campeãs.”
“Elas têm que malhar muito PARA FICAREM magrinhas.”
“O TSE liberou duas das quatro parcelas PARA SEREM DIVIDIDAS por 26 partidos.”
“O porta-voz francês informou que as medidas A SEREM TOMADAS contra o terror são iguais às da Inglaterra.”
 
4) O verbo no plural enfatiza o agente em vez do fato. Em caso de ambiguidade, preferimos o plural para evitar a dúvida:
“Presidente liberou seus ministros PARA SUBIREM em palanque.” (= quem vai subir em palanque são os ministros, não o presidente).

Dessa forma, como podemos ver, a concordância das formas de infinitivo passa por uma série de fatores e, assim sendo, devemos perceber todos os dados contextuais antes de decidirmos, de fato, como proceder.
Espero que todas as informações tenham sido claras e úteis não só ao "aprendiz" mas a todos os aprendizes da nossa amada língua!
Um grande abraço a todos e até a próxima!

Professor Daniel Vícola

terça-feira, 2 de outubro de 2012

"HISTÓRIA" E "ESTÓRIA": QUE HISTÓRIA É ESSA?

 Vou lhe contar uma história ou estória?

E agora? Você também já se viu às voltas com essa dúvida cruel?
Pois bem, você, mais uma vez, não está sozinho(a)! Perdi as contas de quantas vezes respondi a essa questão ao longo desses quase 12 anos de magistério! Será que existe a palavra "estória"? (Porque "história", temos certeza, existe! E nomeia uma ciência humana muito importante, inclusive!) Vamos entender melhor a questão que ora se nos apresenta.
Vários dicionaristas registram apenas o vocábulo "história", condenando o uso da forma "estória", cristalizada em algum momento do uso popular da língua.
Sim, muitas pessoas, durante seus anos escolares, aprenderam que "estória" se opõe à "história" por se referir a um enredo de ficção, imaginado e não vivido por alguém. Seguindo esse raciocínio, a palavra "história" seria empregrada, então, apenas como sinônimo de "relato", conjunto de fatos reunidos num enredo efetivamente vivido, experienciado por alguém. Como os contos de fadas, por exemplo, são fantasiosos, eles constituiriam aquilo a que alguns chamariam "estórias", não "histórias". Já aquilo que lemos nos livros de "História", teoricamente, é real, justificando a nomenclatura que lhe é atribuída.
Verdade ou mito? Mito, minha gente! E vamos entender o porquê.
Em relação a mais esse quiprocó da nossa língua quero, de início, registrar minha posição pessoal: concordo com o que registra o dicionário Aurélio e uso apenas a forma "história" para me referir a enredos reais ou imaginários, indistintamente. Por quê? Segundo o professor Sérgio Rodrigues: "... a fronteira entre história real (história) e história inventada (estória) me parece fluida demais para tornar funcional a adoção de dois vocábulos. Todo mundo sabe – ou deveria saber – que a história, bem espremida, é cheia de “estórias”. E vice-versa. Acho mais inteligente deixar a distinção a cargo do contexto." 
Um dado curioso, ainda segundo o mesmo autor, é que "contrariando o que muitos imaginam, estória não é um anglicismo relativamente recente (do século 20), mas uma palavra mais antiga do que história – e, a princípio, com o mesmo significado. É o que informa também o Houaiss: estória foi registrada no século 13 e história, no 14. O melhor dicionário brasileiro acrescenta que, como sinônimo perfeito da segunda, a primeira caiu em desuso, sobrevivendo, hoje, como um regionalismo brasileiro que significa 'narrativa de cunho popular e tradicional'. O que me parece ao mesmo tempo vago e restritivo."
São ensinamentos interessantes de Rodrigues também os seguintes: "Resta a questão da origem da palavra estória, que o Houaiss, embora situando o fato sete séculos antes do que acredita o senso comum, confirma ser o inglês story, também esta uma palavra do século 13. No entanto, vale a pena considerar a hipótese de estória ter derivado – do mesmo modo que story, aliás – do francês arcaico storie, entre outras razões, por sua razoável precedência: data de 1105."
Os adeptos do uso de estória, conforme atestam alguns estudiosos da língua, são minoritários. E um ilustre representante das nossas letras parece ter responsabilidade parcial por essa escolha: o renomado autor regionalista Guimarães Rosa, que usou a palavra no título de um livro, “Primeiras estórias”, datado de 1962 (cujo primeiro conto, inclusive, começa com a frase “Esta é a estória”). Destarte, penso que não podemos dizer que os que grafam estória estejam desprovidos de credenciais - ao menos literárias, deixemos claro! 
Assim, para ser ortograficamente correto, prefira grafar "história" em contextos oficiais, que exijam o emprego da famigerada norma culta. Em contextos mais intimistas, que possibilitem expressão mais livre, artística e solta, a escolha, claro, fica a seu critério! Afinal de contas, como diz o sábio Luís FernandoVeríssimo: "A gramática tem que apanhar muito pra aprender quem é que manda!"
E tenho dito.

Professor Daniel Vícola

sábado, 8 de setembro de 2012

"DE MAIS" OU "DEMAIS"?

 Nossos alunos são comprometidos demais com os estudos!

Prontos para resolver mais uma dúvida recorrente da nossa amada língua?
Numa oração como: 

Sabemos que ela fala demais!
Sabemos que ela fala de mais!

Qual é a forma correta: "demais" ou "de mais"?
Você sabe diferenciar essas duas formas? Saberia, com precisão, determinar qual das versões da oração acima é a correta?
Nosso post de hoje, então, vai esclarecer essa dúvida e eliminar o problema!
Entendamos, pois, as diferenças. O que importa, de fato, para decidirmos o caso de usar a palavra "demais" ou a expressão "de mais" não é propriamente como classificamos uma ou outra, mas o significado apresentado por cada uma delas. 
De modo geral, DEMAIS, numa só palavra, funciona como advérbio de intensidade. Acentua, portanto, o valor de verbo, de um adjetivo ou mesmo de um outro advérbio, apresentando significado próximo ao de "muito", "muitíssimo", "extremamente", "excessivamente", "em demasia". 
Observe os exemplos listados abaixo: 

"A seleção de vôlei jogou demais no último campeonato." 
"Perto demais do fogo, Juanes se queimou." 
"Elisa era linda demais nas suas recordações infantis." 
"Soube que eles escrevem mal demais." 

Perceba que, em todos os casos listados acima, a palavra "demais" está associada a verbo, adjetivo ou advérbio, sempre cumprindo, em relação a todas essas palavras, a função de lhes intensificar o sentido.
Portanto, não se esqueça disso: DEMAIS, quando se refere a VERBOS, ADJETIVOS ou ADVÉRBIOS, é um ADVÉRBIO DE INTENSIDADE, e é uma palavra só: DEMAIS!

Só que a palavra "DEMAIS" também pode ser empregada como pronome indefinido, quase sempre precedida de artigo, com o significado de os outros, os restantes, os mais. Acompanhe o exemplo:

"Foram impedidos poucos candidatos do partido; os demais se deram bem." 

Demais como adjetivo: 

"Os demais candidatos recorreram ao STF e se deram bem." 

"Demais" equivale, ainda, a "além disso", "ademais", "demais disso", "de mais a mais" - em uso pouco frequente; há quem discorde, mas, nessa acepção, alguns gramáticos classificam demais como conjunção coordenativa que introduz uma oração explicativa, às vezes, seguida de vírgula. Curiosa e justificável essa osci­lação, porque a classe adverbial é um tanto difusa, como lembra Celso Cunha em sua Gramática da Língua Portuguesa (Fename, 1982). Exemplos: 

 "Dora disse que não queria mais ser parte daquele setor; demais não leva jeito mesmo." 
 "Não disse nada a ela; demais, não havia o que dizer." 

Já a expressão "DE MAIS", composta por preposição e advérbio, expressa a noção de quantidade, com significado aproximado de a mais, como oposto de de menos. Tem função adjetiva; acompanha, portanto, substantivos ou palavras substantivadas: 

"Maristela perdeu quilos de mais." 
"Está tudo em cima; nem ossos de mais, nem carne de menos." 
"Não houve nada de mais com ela." 

Assim, minha gente, no frigir dos ovos, classificações e definições, "na hora H", pouco importam. O que importa é observar com atenção o sentido da frase para fazer a escolha apropriada.
Espero que tenhamos, aqui, esclarecido mais essa dúvida acerca de expressões de uso cotidiano na língua.
Deixo meu grande abraço a todos.
Até a próxima!

Prof. Daniel Vícola

terça-feira, 4 de setembro de 2012

"EM FÉRIAS" OU "DE FÉRIAS"?

 "De férias" ou "em férias"? Relaxe! O importante é descansar!

A dúvida, hoje, é da Gisele, aluna da Turma Regular da Federal Getussp. Ela me perguntou, em nosso último encontro, a respeito das expressões "em férias" e "de férias": quando usar uma ou outra dessas expressões e em quais contextos. A resposta, então, vem em forma de post, também, para que o conhecimento possa ser compartilhado por todos.
No cotidiano falado da língua percebemos uma infinidade de expressões das quais comumente fazemos uso, sem que, necessariamente, elas estejam de acordo com aquilo que é aconselhado ou prescrito pela gramática. Por isso a consulta a boas fontes é fundamental! Claro que, de modo geral, não há como controlarmos muito as palavras ou expressões na língua falada, uma vez que ela se caracteriza, sobretudo, pelo imediatismo e pela espontaneidade. Mas é prudente - e de muito bom tom! - que você dispense uma atençãozinha maior a tudo aquilo que for registrar por escrito, afinal, é na escrita que os erros e deslizes aparecem de maneira mais evidente. 
No caso da dúvida da Gisele, não podemos falar em erro, uma vez que, segundo consulta empreendida, ambas as formas estão corretas: de férias ou em férias. Vamos analisar alguns exemplos? Acompanhe:

A cidade ficou vazia, pois todos estão de férias
Quero que chegue logo o mês de dezembro: estaremos em férias

Entretanto, há uma ressalva a se fazer (Sim, a gramática sempre tem algum comentário de rodapé com que nos advertir!): quando resolvemos atribuir um adjetivo ao substantivo "férias", recomenda-se usar a expressão “em férias”. Como podemos observar nos exemplos seguintes: 

Os funcionários daquela empresa sairão em férias coletivas
Após o fechamento das notas finais, comunico que todos os nossos alunos estarão em merecidas férias

Simples, não?
Espero que essa dica lhes tenha sido útil!
Grande abraço!

Professor Daniel Vícola

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ESTAMOS "EM PÉ" OU "DE PÉ"?


A dúvida foi levantada pelo aluno Diogo, da Federal Getussp. Alguma vez você também ficou em dúvida a respeito de qual das duas formas utilizar? Pois bem, uma pesquisa em diferentes fontes revelou que, neste caso, são corretas as duas formas de se dizer. Assim, via de regra, para muitos contextos, tanto faz dizer ou escrever "em pé" ou "de pé".
Mas, curioso por maiores explicações, foi em gramáticas portuguesas que encontrei maiores detalhes acerca da utilização dessas expressões. O que aprendi com nossos irmãos portugueses, então, compartilho abaixo, com todos vocês!
Cada um dos falantes da língua escolhe uma ou outra forma conforme lhe parecer melhor, pois que ambas as locuções significam, geralmente, em posição vertical, ereto, firme, levantado. São, pois, do ponto de vista semântico, locuções sinônimas. 
Há, porém, algumas pequenas nuances de significação quanto ao emprego: geralmente dizemos "de pé", quando aludimos à posição contrária à de sentado ou deitado
Veja alguns exemplos:

O meu professor dá as aulas sempre de pé
Fique de pé e ouça-me. 
Estou de pé desde as seis horas da manhã. 
Ficou de pé o dia inteiro para atender as pessoas. 
As árvores morrem de pé

Repare que, em todos os casos, a expressão "de pé" é antônima de "sentado(a)" ou "deitado(a)".

Geralmente dizemos "em pé" quando nos referimos à posição de ereto, firme, levantado, sem pretendermos contrapô-la à de sentado ou deitado. 
Observe alguns exemplos:

O André é aquele que está ali, em pé, perto da Júlia. 
Vou até ao restaurante de comer em pé
Ele farta-se de trabalhar. Anda sempre em pé
Quanto a funcionário, geralmente dizemos que ele está sempre em pé no seu trabalho – sempre em pé para atender as pessoas – e não sempre de pé. Sendo assim, parece que devemos preferir: o funcionário trabalha em pé.

Contudo, como já dissemos, estamos em presença de expressões sinônimas. As diferenças expostas acima dizem respeito apenas às preferências registradas no uso cotidiano da língua, numa tentativa de entender e esclarecer como é que se dá o emprego de tais expressões em atos de comunicação engendrados em língua portuguesa. De maneira geral, por se tratar de uma relação sinonímica, você poderá empregar aquela forma que, no ato de fala, sentir que fica melhor.
Espero que todos tenham aproveitado a pesquisa e esclarecido mais uma dúvida referente à nossa querida língua portuguesa!
Grande abraço a todos.

Professor Daniel Vícola

terça-feira, 28 de agosto de 2012

"A SEMANA PASSADA" OU "NA SEMANA PASSADA"?



Já teve essa dúvida e não soube como solucioná-la? No uso cotidiano da língua impasses como esse sempre surgem e é muito pertinente que você, querendo conhecer um pouco mais do nosso idioma, dedique-se a solucioná-los e, através disso, melhorar sua capacidade de expressão escrita e falada.
Nesse caso específico, a gramática nos mostra que é indiferente usar a preposição "em" ou não. Assim, indistintamente, você poderá dizer/escrever: 

O presidente da empresa deu várias entrevistas o ano passado. 
O presidente da empresa deu várias entrevistas no ano passado. 

Esta semana pretendemos dar um grande impulso ao movimento. 
Nesta semana pretendemos dar um grande impulso ao movimento. 

Receberemos a mercadoria quinta-feira próxima. 
Receberemos a mercadoria na quinta-feira próxima. 

“No ano anterior, ali pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois anos, fiz-me teólogo. – quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de Niterói, antigo companheiro de colégio, que assim me dava. delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele mês de agosto de 1859, recebeu ele uma carta de um vigário de certa vila do interior, perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que quisesse ir servir de enfermeiro ao Coronel Felisberto, mediante um bom ordenado.” (Machado de Assis – O enfermeiro)

“A noite passada, você veio me ver / A noite passada, eu sonhei com você” (Herbert Viana)

“No dia em que o homem chegou, Betsy teve o derrame e ficou sem comer.” (Rubem Fonseca – Betsy)

“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar.” (Chico Buarque de Holanda – Valsinha)

“(…) Uma noite, correu a notícia de que o bazar se incendiara.” (Cecília Meireles – Brinquedos incendiados)

“Um dia desses, indagado sobre qual das modernas comodidades tecnológicas eu não dispensaria, respondi de pronto: a energia elétrica.” (Gilberto Gil)

sábado, 2 de abril de 2011

ENTENDENDO O OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO


Muito bem. Estamos na aula sobre sintaxe do período simples, você imagina já ter entendido tudo sobre complementos verbais (objeto direto e objeto indireto) quando o professor vem com essa: "Vamos falar, agora, sobre o OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO, turma!"
Como assim? Será que a gramática enlouqueceu? Será que ela está contrariando suas próprias normas e querendo nos deixar confusos?
Muita calma nessa hora, minha gente! Por mais "absurda" que, à primeira vista, isso possa parecer, eu garanto pra vocês: esse fenômeno e sua nomenclatura FAZEM, sim, MUITO SENTIDO!
É só você prestar bastante atenção e entender por que é possível preposicionar um objeto direto sem, contudo, transformá-lo num objeto indireto.
Preparados para desmistificar mais um ponto relacionado à sintaxe do nosso idioma?
Pois bem, aqui vamos nós!

ENTENDENDO O OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO

Sabemos que objeto direto é o complemento que se liga ao verbo diretamente, isto é, sem o auxílio de preposição. Assim, em “Devemos respeitar nossos pais”, nossos pais é objeto direto do verbo respeitar porque se liga a ele sem a presença de preposição.(X respeita Y)
Entretanto, às vezes, o objeto direto pode aparecer precedido de preposição – e essa preposição, geralmente, é “a” – sem que isso o transforme em objeto indireto (que, como você já sabe, é complemento ligado ao verbo através de uma preposição). Neste caso, temos o objeto direto preposicionado, como em “Amar a Deus sobre todas as coisas”. “Amar”, no contexto, é transitivo direto (X ama Y), mas mesmo assim apareceu a preposição “a” (amar a Deus). 
Como você vê, existem contextos em que podemos empregar a preposição em relação a complementos que se ligam a verbos transitivos diretos. Normalmente, quando isso acontece, há razões semânticas por trás do preposicionamento desse objeto direto. Há casos em que o uso do objeto direto preposicionado é facultativo e, e outros em que tal uso pode ser considerado até mesmo "obrigatório", uma vez que sua função é promover a desambiguação da frase. Vejamos mais detidamente como isso se processa:

Uso facultativo:

• Com certos pronomes: “Márcia beneficiava a todos a sua volta” e "Gato a quem mordeu a cobra tem medo à corda". 

• Com verbos que exprimem sentimentos: “A garota amava aos que a rodeavam” e “Detesto a Paulo e à sua corja.”.

• Nas antecipações do objeto, comuns em provérbios: "A quinta roda ao carro não faz senão embaraçar" e “Ao boi, pega-se pelo corno e ao homem, pela palavra". 

• Como reforço à clareza: “Cumprimentei-o e aos que com ele estavam” e “Expulsou-o e aos comparsas”. Sem a preposição, podemos imaginar ser o segundo elemento do objeto direto sujeito de algum verbo, que na realidade não existe.

Uso obrigatório:

• Para evitar ambiguidade, mais precisamente, para não haver confusão entre o sujeito e o objeto: “A Daniel Mariana contratou” e “O urso ao caçador surpreendeu”. Sem a preposição, teríamos as construções ambíguas “Daniel Mariana contratou” e “O urso o caçador surpreendeu”. Nelas, não se sabe quem contratou quem nem quem surpreendeu quem. É claro que, como você já deve ter se questionado a essa altura, a ordem direta das frases resolveria muito bem a dificuldade: “Mariana contratou Daniel” e “O urso surpreendeu o caçador” –, mas se o escritor quiser manter a ordem inversa, a preposição é indispensável para a clareza da frase.

• Quando o objeto direto é constituído de formas pronominais: “Viu-me e a si própria refletidos nas águas da lagoa” e “Escolheu a eles seus conselheiros”. Sem a preposição, impõe-se o pronome oblíquo: “Escolheu-os seus conselheiros”. Veja ainda que as formas a mim, a si, a nós, etc. podem, pleonasticamente, reforçar os objetos representados pelos pronomes me, te, se, nos e vos, como em “Concluí que me feri a mim mesmo” e “Prejudicou-se a si próprio com o ato”. Como se vê, é também possível reforço adicional mediante o auxílio dos demonstrativos mesmo e próprio com propósito enfático.

Outra particularidade é a que se refere a verbos como comer e beber. Em “Gertrudes comeu a torta” e “Miguel bebeu o chá”, esses verbos são claramente transitivos diretos e consideramos que os sujeitos consumaram a ação, ou seja, comeram e beberam tudo. O que dizer, porém, de “Gertrudes comeu da torta” e “Miguel bebeu do chá”? Entendemos, nessas novas versões, que ambos os sujeitos comeram e beberam parte da torta e um pouco do chá, funcionando o objeto direto preposicionado, nesse caso, como um indicador de partitivo.

Espero que, a partir de agora, o conceito de objeto direto preposicionado fique mais claro para você!
Um grande abraço a todos e até a próxima!

Prof. Daniel Vícola