sábado, 2 de abril de 2011

ENTENDENDO O OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO


Muito bem. Estamos na aula sobre sintaxe do período simples, você imagina já ter entendido tudo sobre complementos verbais (objeto direto e objeto indireto) quando o professor vem com essa: "Vamos falar, agora, sobre o OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO, turma!"
Como assim? Será que a gramática enlouqueceu? Será que ela está contrariando suas próprias normas e querendo nos deixar confusos?
Muita calma nessa hora, minha gente! Por mais "absurda" que, à primeira vista, isso possa parecer, eu garanto pra vocês: esse fenômeno e sua nomenclatura FAZEM, sim, MUITO SENTIDO!
É só você prestar bastante atenção e entender por que é possível preposicionar um objeto direto sem, contudo, transformá-lo num objeto indireto.
Preparados para desmistificar mais um ponto relacionado à sintaxe do nosso idioma?
Pois bem, aqui vamos nós!

ENTENDENDO O OBJETO DIRETO PREPOSICIONADO

Sabemos que objeto direto é o complemento que se liga ao verbo diretamente, isto é, sem o auxílio de preposição. Assim, em “Devemos respeitar nossos pais”, nossos pais é objeto direto do verbo respeitar porque se liga a ele sem a presença de preposição.(X respeita Y)
Entretanto, às vezes, o objeto direto pode aparecer precedido de preposição – e essa preposição, geralmente, é “a” – sem que isso o transforme em objeto indireto (que, como você já sabe, é complemento ligado ao verbo através de uma preposição). Neste caso, temos o objeto direto preposicionado, como em “Amar a Deus sobre todas as coisas”. “Amar”, no contexto, é transitivo direto (X ama Y), mas mesmo assim apareceu a preposição “a” (amar a Deus). 
Como você vê, existem contextos em que podemos empregar a preposição em relação a complementos que se ligam a verbos transitivos diretos. Normalmente, quando isso acontece, há razões semânticas por trás do preposicionamento desse objeto direto. Há casos em que o uso do objeto direto preposicionado é facultativo e, e outros em que tal uso pode ser considerado até mesmo "obrigatório", uma vez que sua função é promover a desambiguação da frase. Vejamos mais detidamente como isso se processa:

Uso facultativo:

• Com certos pronomes: “Márcia beneficiava a todos a sua volta” e "Gato a quem mordeu a cobra tem medo à corda". 

• Com verbos que exprimem sentimentos: “A garota amava aos que a rodeavam” e “Detesto a Paulo e à sua corja.”.

• Nas antecipações do objeto, comuns em provérbios: "A quinta roda ao carro não faz senão embaraçar" e “Ao boi, pega-se pelo corno e ao homem, pela palavra". 

• Como reforço à clareza: “Cumprimentei-o e aos que com ele estavam” e “Expulsou-o e aos comparsas”. Sem a preposição, podemos imaginar ser o segundo elemento do objeto direto sujeito de algum verbo, que na realidade não existe.

Uso obrigatório:

• Para evitar ambiguidade, mais precisamente, para não haver confusão entre o sujeito e o objeto: “A Daniel Mariana contratou” e “O urso ao caçador surpreendeu”. Sem a preposição, teríamos as construções ambíguas “Daniel Mariana contratou” e “O urso o caçador surpreendeu”. Nelas, não se sabe quem contratou quem nem quem surpreendeu quem. É claro que, como você já deve ter se questionado a essa altura, a ordem direta das frases resolveria muito bem a dificuldade: “Mariana contratou Daniel” e “O urso surpreendeu o caçador” –, mas se o escritor quiser manter a ordem inversa, a preposição é indispensável para a clareza da frase.

• Quando o objeto direto é constituído de formas pronominais: “Viu-me e a si própria refletidos nas águas da lagoa” e “Escolheu a eles seus conselheiros”. Sem a preposição, impõe-se o pronome oblíquo: “Escolheu-os seus conselheiros”. Veja ainda que as formas a mim, a si, a nós, etc. podem, pleonasticamente, reforçar os objetos representados pelos pronomes me, te, se, nos e vos, como em “Concluí que me feri a mim mesmo” e “Prejudicou-se a si próprio com o ato”. Como se vê, é também possível reforço adicional mediante o auxílio dos demonstrativos mesmo e próprio com propósito enfático.

Outra particularidade é a que se refere a verbos como comer e beber. Em “Gertrudes comeu a torta” e “Miguel bebeu o chá”, esses verbos são claramente transitivos diretos e consideramos que os sujeitos consumaram a ação, ou seja, comeram e beberam tudo. O que dizer, porém, de “Gertrudes comeu da torta” e “Miguel bebeu do chá”? Entendemos, nessas novas versões, que ambos os sujeitos comeram e beberam parte da torta e um pouco do chá, funcionando o objeto direto preposicionado, nesse caso, como um indicador de partitivo.

Espero que, a partir de agora, o conceito de objeto direto preposicionado fique mais claro para você!
Um grande abraço a todos e até a próxima!

Prof. Daniel Vícola

3 comentários:

Jéssica PEIXOTO DA SILVA disse...

muito Bom!

Jéssica PEIXOTO DA SILVA disse...

muito bom o conteúdo!

josielsantos santos disse...

Essa é a primeira vez que eu visitei o blog e de cara já gostei muito, até criei um atalho na minha área de trabalho, rs.
Muito bom e esclarecedor o que você posta prof Daniel Vícola, muito obrigado.

Grato

Josiel Santos